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O corpo estranho no espaço escolar

18 de novembro de 2013




Sim, hoje eu (também) fui chamado de Félix.
E não era a beleza, a riqueza e a finesse
(ou seja lá quais qualidades que o personagem tem),
os substantivos usados para me nomear...
Era o 'defeito' que estava em primeiro lugar:
Meu corpo estranho.
No espaço escolar.

Uma escola já conhecida,
Da onde só paixões até então conhecia...
Mostrou-se obsoleta,
Diante de uma singela presença.
Fiz-me não notar o espetáculo que tanto queriam montar.
Impossível, a homofobia estava lá.

Juninho, um machista no capricho

26 de agosto de 2013


 
Fotos: Arquivo NE10
Juninho aprende a ser homem, macho, como se espera, é o que tem que ser

Por Miguel Rios 

Juninho nasceu. Dia de festa na família, de orgulho. O filho varão. Quarto azul, roupinhas azuis. Azul é o ursinho. Azul é o chocalho. Trata-se de um menino, homem, e tem logo que ser identificado com tal. Não deixar dúvidas.

Juninho é carregado pelos tios e logo seu pênis, mesmo diminuto, é louvado. "Pintão!". "Esse puxo ao tio!" As tias se apressam em arranjar um par para quem tem um dia de vida. "Agora a filha de Maria e João tem com quem namorar", diz uma. "Tem também a de Pedro e Juliana", lembra outra. Chegam logo a um consenso que ele dará conta de todas.

É garanhão. É homem. Surge a conclusão que ele estava virado para o lado direito, pois, nessa posição, poderia ficar de olho na menininha ao lado no berçário. Conversa vai conversa vem, alguém lança a teoria que quando ele chora as garotinhas se calam para escutar o grito másculo do conquistador.

Juninho é homem e como homem será criado. É uma família que nutre a testosterona, a macheza, com muito cuidado. Não podem fraquejar, por tudo a perder.

O menino cresce e é teleguiado na ordem. Bola e carrinho. Falcon e Comandos em Ação. Um dia Juninho tocou em uma Barbie. De imediato foi repreendido. "Não é para menino". Ele beijou um amiguinho na bochecha. Recebeu uma bronca maior. Roubou um beijo na boca da coleguinha. Quanta alegria dos pais, que fingiram desaprovar diante dos familiares da garota, mas comemoraram em casa o avanço do amado homenzinho. "Esse não nega. Vai pegar todas. Hehehehe!" Como o pai está feliz.
É gradual. Juninho aprende a ser homem, macho, como se espera, é o que tem que ser. O tio o abraça e pergunta: "Quantas namoradas já tem na escola?" Juninho responde: "Sete". O abraço fica ainda mais apertado. Respondeu assim... na obrigação, no escapa. De tanto ser questionado e ficar perdido sem saber o que falar, contou as amigas de classe e jogou o número na inocência. Foi premiado, viu que agradou. Tempos depois aumentou para oito. Mas comemorado ainda. Juninho fixou que quanto mais aumenta a soma, mais homenageado é.

Aprendeu. Homem tem que pegar muitas, tem que contar que pega muitas e aí causa contentamento. Mulher é feita para ser apanhada. Juninho já sabe que isso "é coisa de homem", que "homem é assim mesmo", "que quem quiser que prenda suas cabritas que o meu bodinho está solto". Juninho fixou.

Chegou na adolescência e tem consciência de que o mundo é machista, desde o começo é desse jeito, fim de papo. Ele dos que saem e paqueram. Dos que se ligam em uma garota e vão para cima. Dos que acham que a fêmea tem que ceder, que sua cantada é imbatível, que insistir é fundamental.

Juninho aprendeu com os parças que a mulher vai ali para ser incomodada, que ela faz doce, mas ela está querendo, que não tem que abrir para o beicinho dela, que macho que é macho não desiste. Ele já beijou forçando, puxou cabelo, levou tapa na cara e bateu de volta.

Juninho modelou a mente para identificar a menina para ficar e a para namorar. Normas que ele segue à risca, porque homem que é homem de respeito não se liga à vagabunda, não quer ouvir "tás com uma rodada?". Para namorar é a menina com menos fama de ficante possível. A comportada. A virginal. Para dar uns pegas é a liberta, a sem amarras, que ele conhece como piranha. A que não vai rejeitá-lo. A que taxaram como sempre disponível. Que é ir lá e pimba!, já pegou. Que se recusar ele tem o direito de reclamar: "Como assim ele ser recusado?", "Como assim aquela puta posar de difícil?". Juninho não entende. Não admite. Não foi o que lhe disseram desde sempre, está fora do eixo.

Não é o que lhe cobram. Juninho sabe que precisa corresponder. Caso algum requisito do macho ideal falte em sua ficha, ele tem que pagar. Preço, para ele, duro.

Se Juninho tropeçar diante da banca examinadora, que nunca para de fiscalizar, é chamado de gay. Instantâneo. Se fraqueja na caça sexual, é veado. Se usa um sapato fora das regras, é boiola. Se pede um chá na cantina da escola, é bicha.

Inadmissível para ele. Juninho foi doutrinado para pensar que, mas que tudo, homossexualidade é o que há de pior. Que seus tios e tias, primos e primas, avôs e avós, mãe e pai, sempre o guiaram no cabresto, com tanta pressão, tanta vigilância, tanto esforço, para evitar a desgraça. Que ele pode ser tudo. Machista, tarado, bandido, dar desfalque, trair um amigo, ser violento, mandar pessoas para o hospital. Tudo. Menos a desonra de ser gay.

Juninho treme apenas em pensar na possibilidade de que alguém bote sua macheza em dúvida. Nunca. Logo ele que para desmerecer chama logo de veadinho. Logo ele que vai para o estádio torcer e grita sem parar "Fulano, veado", "Time de mariquinhas". Que nem cogita ter um jogador homossexual manchando as cores de seu manto sagrado. Que caso ocorra vai ameaçar o cara,manda sair, já em pânico pela chacota que o adversário vai fazer pelo resto da vida.

Logo Juninho que não lava um prato, nem arruma a cama por ser trabalho de mulher. Logo ele que abusa dos gesto viris. Que abraça amigo quase na porrada para que o afeto não seja confundido com delicadeza. Que grita palavrão quando uma garota de minissaia passa, que coleciona Playboys, que de jeito nenhum chora porque nada a ver ser sensível, que transa mesmo sem estar a fim apenas para manter a reputação intacta.

Que acha que o mundo corre perigo de enveadar por causa dos direitos LGBTs. Que ficou sabendo que ativista homossexual é gayzista, que ser homofóbico é apenas bater em gays, que destratar, querer que continuem subcidadãos, subalternos, é defender o orgulho hétero, as famílias, a ordem natural. Que acha o mundo é hipócrita, já que ninguém quer ter filho gay, mas ficam defendendo.

Juninho é algoz e vítima. O mundo, que ele tanto acredita ser imutável, que como está deveria ficar, solidificou aos poucos, desde quando bateu suas primeiras palminhas, o que ele prega.

O mundo de Juninho é o de verdades velhas, fabricadas por interesse, de seus antepassados, que ele absorveu como suas. De que há pessoas subordinadas, que o lugar delas é aquele, que não têm nada que contestar. Elas têm é que se contentar.

Juninho é um rei. Está no lucro. Posto no topo da cadeia alimentar, em um ecossistema onde outros são presas. Para capturar, acasalar, procriar ou para destruir. Ele luta para perpetuar seu lugar dominante.

Juninho não atenta, em seu silêncio crítico e criativo, o quanto ele nada tem de atitude. De ele mesmo. É um papagaio, uma cópia. Um escravo, que asfixiou uma parte de si para dar satisfação, se moldar ao que se quer dele. É passivo.

Mas Juninho está nem aí, nem vai chegando. Raciocínios novos são frescuras de veado. Ficar lamentando injustiça é mimimi de veado. Homem bebe, arrota e dá no couro. E fica tudo bem.

Juninho tem mais é que se preocupar com o casamento que se aproxima. Com menina que ele desvirginou e engravidou. Não está muito na de juntar as escovas de dente, já caiu na greia dos companheiros, de que vai para a forca, que perder a liberdade, mas ele se compromete a não deixar a farra e a pegação. "Mulher em casa nada impede mulher na rua". E arranca gargalhadas. Se não der certo, separa e volta por completo para a curtição.

O importante é que Netinho nasce daqui a seis meses. Enxoval azul já encomendado. Max Steel e Hot Wheels na prateleira. Netinho vai puxar ao pai. Macho todo.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Abertura oficial do Curso Gênero e Diversidade na Escola

28 de abril de 2013


Coordenado pela Profa. Dra. Iracilda Pimentel Carvalho, iniciativa da Faculdade de Educação em parceria com SECADI/MEC comemora sua 4ª oferta. Saiba mais.


A Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (FE/UnB) em parceria com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (SECADI/MEC) realiza a 4ª oferta do curso Gênero e Diversidade na Escola (GDE). A 3ª oferta do curso, com início em 06 de outubro de 2012 e término em 17 de fevereiro de 2013 foi um sucesso e obteve aceitação e avaliação positiva por parte dos/as profissionais da educação da Secretaria de Educação do Distrito Federal. O curso, coordenado pela Profa. Drª. Iracilda Pimentel, realizará a abertura oficial no dia 04 de maio de 2013, sábado, a partir das 8h30min, no Auditório Dois Candangos, da Faculdade de Educação (FE/UnB).


O Gênero e Diversidade na Escola (GDE) é um curso de extensão que visa formar os/as profissionais da educação da rede de pública de ensino do Distrito Federal nos temas gênero, orientação sexual e relações étnico-raciais, visando provê-los/as de ferramentas para refletirem criticamente sobre a prática pedagógica individual e coletiva e combaterem toda forma de discriminação no ambiente escolar.


Confrontos e encontros no Bar Barulho

7 de janeiro de 2013


Nos últimos tempos, tenho lido muita coisa. Prefiro a leitura de artigos, livros, dissertações e teses no campo da pesquisa de gênero e sexualidade. Gosto dessa área, talvez por ser um campo "intolerável" para muita gente, como diz a historiadora e educadora Guacira Lopes Louro. Ontem, pesquisando na web sobre os conflitos que giram em torno do Bar Barulho, localizado no Parque da Cidade, pude encontrar o artigo de Marcelo Teixeira. O artigo chamado Configurações espaciaise formações identitárias: conflitos, resistências e revanchesem um bar gay popular, foi apresentado no III Seminário Internacional Urbicentros, no final de 2012, em Salvador-BA, e é fruto da pesquisa de mestrado que Marcelo desenvolve pela Universidade de Brasília.  

 

Neste artigo, Marcelo nos explica um pouco “o que está em jogo” nos constantes fechamentos do Bar Barulho, nesses últimos anos. Afinal, só pela minha lembrança, o Barulho foi fechado duas vezes: uma em 2007 e outra em 2012. Marcelo fala especialmente do último fechamento do Bar e aponta pontos fundamentais para entendermos esse “contexto”, mas principalmente reafirma a importância do Bar Barulho nas práticas culturais e de formação identitária da comunidade LGBT “menos abastada” do Distrito Federal e entorno. Sem dúvidas, o Bar Barulho representa mais que só um espaço de paquera ou um ponto de encontro das juventudes brasilienses LGBT. Trata-se de um lócus de (re)criação da cultura, de formas de expressão, de corporalidades, isto é, um importante espaço de formação identitária individual e coletiva, como o próprio Marcelo afirma.

 

Além do artigo, recomendo também o vídeo “Braqueza, ordem e concreto” que retrata a “Operação Moralização das Áreas Públicas” do Distrito Federal, que além do Bar Barulho, teve também como alvo principal o Setor Comercial Sul, área hoteleira e comercial de Brasília, frequentada na noite pelas travestis e garotas de programa. Nesse vídeo, percebemos o fenômeno da higienização do espaço público, com o objetivo de restaurar o que chamam de “moral e bons costumes”, retirando dali o “outro indesejável”, ou como diz o policial, aquela “gente que não está de acordo com a sociedade”, no caso, as travestis e trans que se prostituem. Nesse vídeo, uma das travestis dá uma lição de “direito” para os “operadores e aplicadores da lei”: “...se você tem documento, você tá legalizada, não é verdade isso gente? Agora se você tá aqui com direito, é maior de idade, você tá aqui porque você quer. Você concorda comigo?."

 





Para saber mais sobre as peculiaridades do Barulho em relação a outros espaços de socialibilidade homoerótica do Distrito Federal e um possível processo de “gentrificação” ou revitalização do lugar, ver também QUEIROZ, Cristina Monteiro de. Estigmas, guetos egentrificação: a segregação homossexual em Brasília. 119 f. 2008. Dissertação (Mestrado em Sociologia) - Universidade de Brasília, Brasília, 2008; Para saber mais a respeito da "Operação Moralização de Áreas Públicas" ver MACDOWELL, Pedro de Lemos. O espaçodegenerado: ensaio sobre o lugar travesti na cidade modernista. 2011. 99 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia)-Universidade de Brasília, Brasília, 2011. Para saber mais sobre como os coletivos LGBT se organizam no Distrito Federal, ver também MATOS, Karla Joyce de Freitas. Rede “Arco-Íris”: Um estudo sobre a articulação política do movimento LGBT do Distrito Federal. 2010. 120 f. Monografia (Ciências Políticas) - Universidade de Brasília, Brasília, 2010.

Virgens juramentadas da Albânia

28 de dezembro de 2012


"Sworn Virgem" (Virgens juramentadas) é o termo dado a uma mulher biológica nos Balcãs, que escolhe, geralmente em uma idade precoce, assumir uma identidade social de um homem para a vida.
 

Como uma tradição que data de centenas de anos, isso era necessário em sociedades que viviam dentro clãs tribais, seguindo o Kanun, um código arcaico de leis, que mantinha um regime opressivo sobre o gênero feminino. 




O Kanun afirma que as mulheres são consideradas propriedade de seus maridos. A liberdade de votar, dirigir, realizar negócios, ganhar dinheiro, beber, fumar, jurar, ter uma arma ou vestir calças era tradicionalmente um domínio exclusivo dos homens. As jovens meninas eram comumente forçadas a casamentos arranjados, muitas vezes com homens muito mais velhos nas aldeias distantes.


Como alternativa, tornando-se uma Virgem juramentada, ou "burnesha”, elevava a mulher ao status de um homem e lhe concedia todos os direitos e privilégios da população masculina. Para manifestar a transição cada uma mulher cortava o cabelo, vestia roupa masculina e às vezes até mudava seu nome. Gestos masculinos e arrogantes eram praticadas até se tornassem uma segunda natureza. O mais importante de tudo, ela fez um voto de celibato para permanecer casta para a vida. Ela tornou-se "ele" .
 

Esta prática continua até hoje, mas com a modernização em direção às pequenas aldeias aninhadas nos Alpes, esta tradição arcaica é cada vez mais vista como obsoleta. Somente algumas idosas Virgens juramentadas” restaram. O número de novos casos são escassos e tendem a ser considerados menos autênticos pelas novas gerações.


Como um fotógrafo com um interesse em assuntos que falam naturalmente a diversidade da experiência humana eu fiquei fascinado com essa história. Eu queria capturar seus retratos antes de eles irem embora para sempre. Eu viajei para as aldeias de montanha do norte da Albânia e o que encontrei foi uma pequena coleção de pessoas extraordinárias. Eu aprendi que as Burnesha são muito respeitadas em suas comunidades. Elas possuem uma quantidade indescritível de força e orgulho, e valor da honra de suas famílias acima de tudo.
 


Sua transição absoluta é totalmente aceita, positiva e consentida, sem dúvida, pelas pessoas com quem convivem. Mas o mais surpreendente, é que elas têm poucos arrependimentos devido o grande acordo que tiveram que sacrificar.

Texto e Foto: Jill Peters