Audiências Públicas "Escola sem Homofobia" e "Assassinatos de LGBT"

24 de outubro de 2010

No mês de novembro de 2010, ocorrerão duas audiências públicas importantes: no dia 23, das 13h30min às 18h, a Audiência Pública “Escola sem homofobia” e, no dia 24, das 14 às 17 horas, a Audiência Pública “Assassinatos praticados contra a população LGBT”. Ambas acontecerão na Câmara dos Deputados. Para ver a programação completa das audiências, clique nos links seguintes: Programação Escola sem Homofobia – Programação Assassinatos praticados contra a população LGBT. 
Veja o material de divulgação:


Curso Prevenção ao Uso Indevido de Drogas - Inscrições Abertas

21 de outubro de 2010


A partir de hoje, 21 de outubro, até o dia 10 de novembro, estão abertas as inscrições para a 3ª edição do Curso Prevenção ao Uso Indevido de Drogas – Capacitação para Conselheiros e Lideranças Comunitárias, promovido pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas – SENAD, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, em parceria com o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (PRONASCI), do Ministério da Justiça.
O Curso será executado pela Secretaria de Educação a Distância (SEaD) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por meio da modalidade de Educação a Distância – EaD, com carga horária de 120 horas, durante um período de 03 meses, para 15.000 conselheiros municipais e líderes comunitários de todo o Brasil, com o intuito de fortalecer a atuação em rede para a prevenção da violência e da criminalidade relacionadas ao uso indevido de drogas.
O curso é gratuito e oferece certificado de extensão universitária emitido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Poderão participar Conselheiros atuantes nos Conselhos Municipais de Segurança, Sobre Drogas, Tutelar, Direitos da Criança e do Adolescente, Educação, Saúde, Assistência Social, Conselhos Escolares, Juventude, Idoso e Trabalho, Conselho de Segurança Comunitária e Líderes Comunitários atuantes em ações de prevenção ao uso de álcool e outras drogas. 
O conteúdo do curso foi elaborado por especialistas da área e reúne informações atualizadas sobre: classificação das drogas e seus efeitos, padrões de consumo de drogas, tratamento, redução de danos, prevenção ao uso de drogas, legislações e políticas públicas correlatas à questão do uso de drogas, dentre outros assuntos. Para obter mais informações e realizar sua inscrição, acesse o portal: www.conselheiros.senad.gov.br

Após o processo de triagem dos inscritos, os alunos selecionados receberão uma mensagem eletrônica da Universidade solicitando que eles efetivem a sua matrícula e comunicando outras orientações sobre o curso. Clique aqui para fazer sua inscrição
Bons Estudos!

Inscrições abertas para o vestibular da UAB-UnB 2010

4 de outubro de 2010


O Programa Universidade Aberta do Brasil (UAB) da Universidade de Brasília (UnB) abriu hoje (04/10) as inscrições para o vestibular dos cursos de licenciatura em Artes Visuais, Música, Teatro, Pedagogia, Letras, Educação Física, Geografia e Biologia. São mil cento e cinco (1.105) vagas distribuídas em sete (7) estados, incluindo o Goiás. As cidades do Goiás contempladas com os cursos são: Anápolis (Música – 25 vagas), Alexânia (Pedagogia – 75 vagas), Goiás (Geografia – 40 vagas; Pedagogia – 75 vagas) e Posse (Artes Visuais – 25 vagas). Outra localidade mais próxima do Distrito Federal é Palmas-TO, com 25 vagas para Artes Visuais, 25 vagas para Teatro e 40 vagas para Geografia. É importante salientar que os cursos prevêem momentos presenciais, onde serão realizados os encontros e avaliações obrigatórias.
Para concorrer a uma das vagas é preciso fazer a inscrição no vestibular pelo CESPE até 21 de outubro, pagar a taxa no valor de R$ 50,00 e realizar o exame, que está previsto para 18 de dezembro de 2010 com duração de 4h30min.
Mais informações podem ser encontradas no site do CESPE e no Portal UAB/UnB.

Quer participar do ENUDS?

2 de outubro de 2010


Entre os dias 08 a 12 de outubro de 2010, ocorrerá o 8º Encontro Nacional da Diversidade Sexual (ENUDS) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Trata-se de um evento de caráter político-acadêmico em torno da discussão sobre gênero e sexualidades que objetiva reunir o meio acadêmico, movimentos sociais, lideranças governamentais e outros(as) interessados(as) nessas temáticas. O tema do 8º ENUDS é "Assimilação versus Transformação: políticas da subversão e ciladas dos movimentos sociais".
Uma caravana, composta por dois ônibus, organizada por universitários(as) da Universidade de Brasília (UnB), sairá na quinta-feira a noite (07/10/2010) rumo ao ENUDS. Devido a desistência de muitos(as) interessados(as), ainda restam aproximadamento 25 vagas gratuitas no ônibus para quem quiser participar do evento. Para confirmar a vaga no ônibus, basta fazer a inscrição no evento, que consiste em realizar o pagamento da taxa de inscrição (no valor de R$ 90,00 para programação, alojamento e alimentação – há outras opções), preencher a ficha de inscrição online que pode ser acessada aqui e enviar a fotocópia do comprovante para o Sr. Nilton Aguilar nos seguintes e-mails: nilton.mac@googlemail.com ou nilton.mac@gmail.com
Além disso, no e-mail os(as) interessados(as) devem enviar, junto com o comprovante de pagamento, seu nome completo (conforme documento), CPF, RG com o órgão expedidor, número de matrícula (caso seja aluna/o da UnB), qual o curso faz (caso não seja aluna/o da UnB, informe onde estuda) e telefone para contato. Ao enviar a fotocópia do comprovante, cadastrem o CPF nessa lista. Recomenda-se realizar a inscrição o mais rápido possível porque  a confirmação da vaga será por ordem de chegada dos e-mails. Para saber se ainda há vagas, clique aqui: http://tinyurl.com/enudsbus
Não esqueçam também que é necessário apresentar o comprovante de pagamento da inscrição no ato do credenciamento lá na Unicamp. 
Para saber mais sobre a programação do ENUDS e informações importantes como, por exemplo, realizar a inscrição, consulte o site do Grupo Identidade ou o Blog do 8º ENUDS ou acompanhe no Twitter @enuds.
Informações sobre o ônibus também pode ser consultadas com o Sr. Nilton Aguilar no seguinte telefone: (61) 9325-7100. 

Estarei no ENUDS! Irei na Caravana! Sairemos na quinta-feira, às 22h, do ICC Norte (UnB) e retornaremos às 19h do dia 12/10, chegando em Brasília às 7h do dia 13/10. Vamos que vamos!
Matéria publicada no site Gay 1

Re-significando minhas experiências no Censo - IBGE 2010

14 de setembro de 2010


O IBGE é uma aventura emocionante! Consegui cumprir o setor em um mês. Ficaram doze casas fechadas, o que corresponde a 5% do total de domicílios e estabelecimentos que registrei. Nos últimos dias, tentando encontrar os moradores que não estavam em casa, vivenciei fatos engraçados e fortes emoções. Além disso, pude significar mais as vivências que tive enquanto estava em campo. Ainda não acabou. Tenho mais um setor a percorrer, mas esse é composto mais de estabelecimentos que domicílios. Como gosto da discussão de raça/etnia, classe social, sexualidade e gênero, é nesses pontos que centrarei essa postagem. 
Infelizmente, o IBGE não discute a questão dos casais homossexuais (sexualidade), de gênero, da questão de cor e raça, da questão de renda (classe social), da escolaridade, da geração, embora sejam perguntas feitas à população. De qualquer forma, acredito que os dados (resultados) obtidos pelo Censo devem ser sempre usados e mencionados sem esquecer da sua relatividade e precariedade. Como disse antes, a maioria dessas questões deixa os entrevistados “sem jeito”, quando não mostram vergonha, fingem, mentem, escondem, ou também demonstram preconceitos, discriminações, desvalorizações. 
Na postagem anterior sobre o IBGE, comentei que mesmo depois de você dizer as opções de cor ou raça (branca, preta, amarela, parda e indígena) as pessoas insistem em dizer “morena”. Quando não é “morena clara”, “morena escura”, “clarinha”, “da sua cor”, “essa cor aqui”. A pergunta “você está querendo contar quantos “negões” há na Ceilândia?”, enunciada por uma moradora, demostra a insensibilidade com a questão de raça/etnia. Dessas situações podem concluir algumas coisas. A dificuldade da população de se definir em termos raciais, a presença do mito da democracia racial, o racismo e a questão do branqueamento. O branqueamento, segundo Thomas E. Skidmore, retirado na Wikipédia, baseia-se na presunção da superioridade branca. Essa corrente vê na miscigenação a saída para tornar a população mais clara, por acreditar que o “gene” da raça branca prevaleceria sobre as demais e que as pessoas em geral procurariam por parceiros mais claros do que elas. Assim afirmavam que o branqueamento produziria uma população mestiça sadia, capaz de tornar-se sempre mais branca, tanto cultural como fisicamente.
Outra questão interessante é que encontrei mais dois casais homossexuais, no mesmo bloco onde encontrei o primeiro. Em que se pese a ideia magnifica da campanha “Ser você for LGBT, diga que é” promovida pela ABGLT e adotada por outros grupos e pessoas, parece que nem todos(as) entenderam o objetivo do Censo em relação a essa questão, mas também parece que a campanha não chegou a os lugares e pessoas que mais precisam da informação. Primeiramente, nesses dias, ocorreu um fato interessante no Twitter. Um dos meus seguidores fez questão de dizer ao recenseador que era homossexual, demonstrando que não sabia os reais propósitos do Censo, que não é pesquisar orientação sexual (homo, bi ou hetero), mas saber quem vive em união consensual ou estável com parceiros(as) do mesmo sexo. Outro fato é que os dois últimos casais homossexuais que entrevistei, aqui na Ceilândia-DF, considerado apenas um dos parceiros, omitiram sua relação afetiva e sexual. Um disse que viviam com o “amigo” e o outro “inventou”, inclusive, que vivia com a “tia”. Essas questões também demonstram outros processos culturais que vivemos. Um deles é a homofobia internalizada, o silenciamento da homossexualidade pela invisibilidade do armário e a crença na discriminação sexual a partir da sua publicitação. 
A questão de classe social é outra igualdade interessante de observar. Poucas pessoas dizem a verdade em relação ao rendimento mensal que ganham. Muitas pessoas evitam dizer seu rendimento porque acreditam que a receita federal ou os políticos podem “controlar” mais a suas vidas financeiras, o que não deixa de ser verdade, a meu ver, por um lado. Muitas pessoas também podem ter receios de afirmar sua renda pensando na possibilidade de serem roubadas (não duvido). Essa questão de rendimento, pelo menos aqui em meu setor, varia muito e só sei que afirmar que a maioria dos moradores do meu setor, embora seja uma cidade periférica e que precisa de investimentos, não são “desfavorecidos economicamente”.
Por fim, atendendo aos pedidos, posto algumas fotos minhas uniformizado com o colete, boné e PDA do Censo. Aliás, eu queria mesmo tirar uma foto para deixar guardada. (Desculpa barata para me mostrar!)
 

Referências: Democracia racial no Brasil. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Democracia_racial_no_Brasil

Minha experiência como recenseador do IBGE em Ceilândia-DF

23 de agosto de 2010


Há algum tempo, venho postando no meu Twitter (@kclever_) notícias e experiências como recenseador do IBGE. Não poderia deixar de elaborar um texto para guardar e compartilhar as memórias dessa experiência riquíssima, por sinal. São tantas situações que se observam em campo, que nem sei se darei conta de registrar todas, mas falarei das mais marcantes.

De modo cronológico, lembro-me das minhas primeiras entrevistas. Minha mão tremia mais do que o “normal”. O PDA, nome dado ao Smartphone, faltava cair no chão de tão nervoso que eu estava. Logo nas primeiras casas, uma descoberta: uma casa usada como “local” de prostituição. Até hoje não consegui falar com a inquilina, parece que ela só atende com hora marcada e códigos secretos que não consegui decifrar.
Eu fiquei responsável pelo setor que corresponde a QNM 02, conjuntos A, B e C, Ceilândia Norte-DF. Já rodei tudo, mas ainda faltam 84 casas fechadas, as quais precisam ser pesquisadas até o final dessa semana.  Nessas visitas e entrevistas percebi “coisas” não apenas da realidade desses(as) moradores(as), mas da minha realidade.
É unanime o desconhecimento sobre as razões do Censo Demográfico. A pergunta sempre (re)feita é “mas pra que isso?”. Essa pergunta é feita sempre, tanto no começo do questionário, na hora que você tem que convencer a pessoa a lhe responder, quanto em questões específicas, por exemplo, sobre renda e cor/raça.
Muitos moradores(as) mentem suas características e condições de vida. Trocam renda, idade, cor/raça, etc. O motivo dessa troca é a preocupação constante de que o Governo pode “descobrir” aquela pessoa, como critério de classificação em torno da receita federal, possível terra (lote) que está esperando ganhar do governo, etc. Também há quem troque informações por pura inquietação ou displicência com o Censo ou o(a) recenseador(a). Outros(as) também mentem por causa do preconceito, de ser “visto” como inferior, sem prestigio, sem “normalidade”.
A questão da cor/raça, muitos(as) me respondiam: “mas eu não sou racista!” Eu dizia: “Eu sei senhor(a), mas a questão não é essa! O IBGE quer saber como é a composição étnica e racial do Brasil”. É interessante também refletir sobre essa questão mais aprofundadamente. Como afirma Silva (2000, p. 83), “[...] numa sociedade em que impera a supremacia branca, por exemplo, “ser branco” não é considerado uma identidade étnica ou racial [...]”. A cor branca não é uma etnia/raça. Etnia/raça é: parda, preta, amarela e indígena. A “identidade branca”, por outro lado, é vista como a identidade “normal” e “desejável”. Não é estranho, portanto, muitos(as) pretos(as) e pardos(as) dizerem que são “brancos”, como percebi. Dizer que é “branco”, nesses casos, é como se fosse dizer “eu sou normal” e evitar, portanto, o preconceito.  Teve um caso de um rapaz branco que disse que era preto, como forma de resistência as perguntas feitas. Tive que marcar que ele era preto, conforme orientações do IBGE, e fiquei pensando: “é bom que equilibra!”. Esse mesmo rapaz mentiu seu rendimento mensal.
Poucos(as) moradores lhe acolhem, mas muitos(as) lhe rejeitam como recenseador. Quantas vezes escutei “você deseja um copo com água?”? – Poucas, poucas mesmo, umas duas vezes de 172 casas/moradores que já entrevistei. Quantos disseram “eu não vou responder isso”, “volta outra hora”, “eu não vou te atender”, “eu não sou obrigado a dá informação alguma para seu IBGE”? – Vários, muitas vezes, frequentemente. No entanto, as situações acolhedoras ficam marcadas, por serem poucas. Há quem tem empatia com o trabalho do(a) recenseador(a). Há quem conte toda sua vida, suas condições, sua rotina. Há quem vira amigos(as): os(as) recenseadores(as) passam na rua, veem você e cumprimentam de longe com um jeito de amizade.

Outra situação interessante que observei é que sempre peço a algum(a) morador(a) para avisar os(as) demais que sou eu quem está recenseando a área e eles(as) dizem: “mas quase não vejo meu vizinho”, “esses vizinhos daqui são estranhos”, “ninguém aqui se fala”. Percebi com isso, o quão as pessoas não se interagem, mesmo morando ao lado. Isolam-se. Fecham-se. Vivem em seus próprios “mundos”. O quanto não importamos também com o “outro”. E o quanto o “outro” só é importante quando “importa” para nós.
A realidade dos postos de coleta aqui da Ceilândia-DF também é importante comentar. No início do Censo, em 5 de agosto de 2010, não existiam coletes (uniforme) para todas as numerações/tamanhos. Existiam poucos questionários de amostra e básicos para serem respondidos pela internet, caso o(a) morador(a) deseje. Não existiam Folha de Recados para deixar no domicílio, caso o(a) morador(a) não se encontre. Tirado o uniforme, as demais carências foram sanadas depois da primeira semana.
A última, que eu nem esperava acontecer mais, foi a satisfação de encontrar um casal homoafetivo. Fiquei feliz em saber, sem muitos receios ou vergonha, da boca de um rapaz que ele morava com o namorado e que no bloco dele há mais homossexuais que são casados consensualmente.
Isso é um pouco da realidade que vivenciei e estou vivenciando como recenseador do IBGE aqui em Ceilândia-DF. Eu sabia que essa experiência ia ser boa, que eu cresceria mais com ela. Quem sabe se essa semana que iniciou não traga mais novidades! Se souber, contarei aqui para vocês.

Referência: SILVA, Tomaz Tadeu et al. A construção social da identidade e da diferença. In: ______. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.

Bolsa Universitária no DF: discriminação, exploração e utilização de “mão-de-obra barata” dos(as) estudantes e má qualidade do ensino público

19 de agosto de 2010


A Bolsa Universitária é um programa lançado no Governo Arruda, com a finalidade de oferecer bolsas de estudos para estudantes universitários sem condições de custear as despesas da formação a nível superior. Em contrapartida, os(as) estudantes contemplados(as) com as bolsas, que são de 70% ou 100%, prestam serviços ao governo do Distrito Federal.
Embora seja uma iniciativa louvável por parte do governo, a bolsa universitária do Distrito Federal utiliza da exploração de estudantes de nível superior como mão-de-obra barata para solucionar a não contratação de professores(as), monitores(as), apoio escolar e outros profissionais tanto para a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, quanto a Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (SEDEST). Ou seja, substituem os(as) concursados(as), não abrem concurso e aproveitam para “lucrar” nos gastos públicos.
Além disso, o governo utiliza da ideia de que “deu” bolsas aos estudantes, sendo que esses(as) “pagam” pelo que receberam ao trabalharem na prestação dos serviços para o próprio governo, ou seja, o governo ganha com isso, se brincar, em dobro.
Tenho muitos(as) amigos(as) que são contemplados com o programa. Eles(as) me queixam da forma como são tratados, muitas vezes, humilhados(as), sendo vistos como “incompetentes” e discriminados pelos(as) outros servidores(as) de carreira.
Outra situação que enfrentam os estudantes que ganham as bolsas é que eles(as) tem que cumprir quatro (4) horas de trabalho diário, o que impede, muitas vezes, depois de aderirem a bolsa, deles(s) conseguirem um estágio remunerado ou mesmo um trabalho para arcar com outras responsabilidades do curso, como apostilas, livros, xerox, impressões, etc. Alguns estudos sobre juventudes tem apontado que se os(as) jovens precisarem escolher entre trabalho e estudo, escolhem o trabalho. Dessa forma, perdermos grande parte das “grandes cabeças”. 

Além disso, há reclamações de frequente atraso no repasse dos vales-transportes para que esses(as) estudantes desloquem-se de casa até o trabalho. Isso, muitas vezes, também acarreta relações conflitosas onde prestam esses serviços, pois são vistos como “irresponsáveis”, caso faltem ao serviço por conta de não ter o dinheiro da passagem.
Por outro lado, a iniciativa de conceder bolsas de estudos em universidades privadas também é uma forma de fortalecimento dos(as) “empresários(as) da educação”. Como defensor do ensino público, acredito que mais importante seria garantir a educação superior pública de qualidade e gratuita para todos(as), sem restrições, criando novas universidades federais e ampliando a oferta de vagas, mas não continuar investindo no setor privado ao repassar verbas ou até mesmo conceder isenção de impostos públicos em troca das bolsas para estudantes desfavorecidos economicamente.
Essas situações relatadas demonstram, em partes, o descaso com a educação no Brasil. A realidade que se observa no cenário educacional brasileiro há algum tempo é: a educação básica é valorizada quando feita em escola privada e a educação superior quando feita na pública. Com isso, observa-se que a maioria dos estudantes oriundos de escolas particulares está na educação superior pública enquanto os oriundos da escola pública estão na privada. A realidade inverte-se. A desigualdade é explicita.
Interessante é analisar a Constituição de 1988. A constituição de 1988 no artigo 208, inciso V, expressa que o dever do estado para com a educação será efetivado mediante a garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um. Essa “capacidade de cada um” é usada como argumento para a existência dos exames vestibulares, como instrumento para ingresso na universidade. Entretanto, o critério para seleção é de autonomia das instituições superiores de ensino. Fato capaz de fortalecer a exigência para o ingresso nas universidades públicas e ser maleável o acesso às privadas. Ou seja, o Estado só garantirá tal acesso aos ditos capazes. Em outras palavras, já pressupunha a incapacidade de muitos e a capacidade de alguns e o Estado pretendia continuar com a elitização da universidade pública, visto que restringia o acesso aos capazes, filhos de generais, governantes, juízes e autoridades em geral. Dessa maneira, cabe indagar: será já era previsto a presença majoritária de estudantes oriundos das escolas particulares no ensino superior público, em 1988?  Como se vê, a lei não era inocente.
Embora o programa Bolsa Universitária ajude a aumentar os índices de estudantes jovens no ensino superior, buscando atingir a meta do Plano Nacional de Educação, o qual expressa que até 2011, 30% dos jovens entre 18 e 24 anos deverão frequentar cursos superiores, é preciso rever e melhorar essa política. Eu, por exemplo, argumento no sentido de alocar esses estudantes beneficiados com a bolsa universitária em suas áreas de atuação, para facilitar o próprio desenvolvimento das competências exigidas pelo seu curso no mercado de trabalho. Pouco valerá no futuro um trabalho prestado em área divergente da qual esses estudantes estão se formando.
Além disso, a atitude de colocar esses(as) jovens para ministrar aulas sem o mínimo de conhecimentos pedagógicos e específicos é como se estivesse “assassinando” aos poucos essas crianças sob a responsabilidade desse jovem. E aí que pergunto: cadê a responsabilidade governamental com a educação e o ensino de QUALIDADE?
Mesmo podendo ser considerada uma política inclusiva, não garante a permanência desses estudantes no ensino superior e não oferece condições de manter seus estudos. Além do acesso ao ensino superior é preciso garantir a permanência que custa caro e muitas vezes é motivo para a desistência.
É importante ter uma visão crítica desses “programas sociais”, por isso resolvi fazer essa postagem. Precisamos formar jovens críticos(as), politica e academicamente, com pensamento autônomo e capacidade de agir sobre a realidade. Discriminação, exploração, uso de mão-de-obra barata dos estudantes e má qualidade do ensino são situações que merecem ser “reprovadas”!